Caatinga – Fauna, Flora e os Dados Científicos mais Recentes.

Características do Bioma Caatinga
O bioma Caatinga ocorre em todos os estados da Região Nordeste e no norte de Minas Gerais, ocupando a região conhecida como Semiárido. Possui vegetação predominantemente arbustiva e de dossel descontínuo, composta principalmente por plantas caducifólias (que perdem suas folhas nos períodos secos), sendo caracterizada como uma savana estépica, mas com muitas fisionomias diferentes.
São reconhecidas duas zonas climáticas no bioma: a zona seca (BSh) e a zona tropical, composta por uma zona de verão seco (As) com chuvas concentradas de maio a julho e a zona de inverno seco (Aw) com precipitação concentrada de dezembro a fevereiro. Além da condição caducifólia (perda das folhas), a vegetação, denominada xerófita (do grego: xeron = seco), possui muitas adaptações ao clima semiárido, como a microfilia (folhas pequenas xilopódios e outras estruturas subterrâneas de reserva, como as raízes tuberosas do umbuzeiro, que armazenam água e reservas de nutrientes ou mesmo plantas com folhas extremamente reduzidas ou modificadas, como os cactos, nos quais as folhas são modificadas em espinhos. Sua distribuição é predominante no Semiárido, cobre principalmente as áreas de menor altitude e apresenta-se como uma vegetação sazonalmente seca.

Vegetação xerófita em afloramentos rochosos no Parque Estadual da Pedra da Boca (Araruna, PB).

A palavra “caatinga”, de origem indígena, é o termo empregado tanto no uso comum quanto na literatura científica para designar a vegetação e o bioma (Andrade-Lima, 1981). O nome é de origem Tupi-Guarani (formado pela junção de “ca’a” significando mata ou planta, “tî” derivado de “morotî” -branco- e “nga”, derivado de angá – semelhante) e significa “mata branca” ou “esbranquiçada” (Prado, 2003) referente ao aspecto condicionado pela perda das folhas na estação seca.
Fauna e Flora
A Caatinga possui uma enorme riqueza de espécies, muitas das quais são endêmicas, ocorrendo apenas nesse bioma, reforçando a importância da proteção do bioma para evitar a extinção global de muitas espécies.
Apesar dos avanços recentes no conhecimento sobre a biodiversidade da Caatinga, ainda precisamos conhecer muito mais sobre o bioma. Os números mais recentes sobre essa biodiversidade, reunidos pelo PPCaatinga em 2025, são mostrados a seguir.
a) cobre uma área mais ou menos contínua, submetida a um clima quente e semiárido, limitado por áreas de clima mais úmido, cuja maior parte encontra-se na Região Nordeste e uma pequena parte no norte de Minas Gerais;
b) possui espécies adaptadas a deficiências hídricas (verificando-se caducifolia, suculência, acúleos e espinhos) sendo marcada por um dossel descontínuo de pequenas árvores, predominância de arbustos e algumas ervas anuais;
c) há espécies típicas desta e ocorrentes em outras áreas secas, mas que não ocorrem nas áreas úmidas circundantes, de acordo com Giulietti et al. (2003).
Segundo Coutinho (2006), a caatinga sensu lato corresponde a um bioma que se constitui de um complexo de formas fisionômicas distribuídas em mosaico, como caatinga arbórea, arbustiva e espinhosa entre outras. Rodal et al. (2008), também corroboram as afirmações acerca da diversidade vegetacional da caatinga, sendo esta caracterizada pelo predomínio da savana estépica (caatinga sensu stricto), mas não se apresentando homogênea e sim com variada cobertura vegetal em escalas regional e local, em grande parte determinada pelo clima, relevo e embasamento geológico.
Para entender melhor a relação entre geomorfologia, clima e vegetação do semiárido, leia o post O SEMIÁRIDO E SEU CLIMA.
O que ainda não conhecemos
Atualmente, são conhecidas 40.414 espécies vegetais no Brasil, mas como veremos agora, ainda temos muito a descobrir, pois estima-se que o nosso catálogo de angiospermas esteja cerca de 20% incompleto. A Caatinga, por sua vez, promete ainda muitas descobertas quando consideramos as pesquisas mais recentes.
Um importante estudo de Gomes-da-Silva et al. (2025) analisou os conjuntos de dados taxonômicos para angiospermas do Brasil entre 1753 e 2020, concluindo que a Caatinga e a Amazônia são os biomas com maior potencial de descoberta de novas espécies.
Aferir precisamente a riqueza taxonômica do Bioma Caatinga envolve muitos desafios. Além da necessidade da realização de novos estudos, a natureza dinâmica do conhecimento taxonômico e ecológico exige revisões constantes.
Em primeiro lugar, é necessária uma integração de dados para serem consultados e analisados, como na base de dados do projeto Flora do Brasil 2020 ( https://reflora.jbrj.gov.br/consulta/#CondicaoTaxonCP. Revisões taxonômicas, novas ocorrências, extinções locais e degradação ambiental representam desafios enormes para a sistematização dos dados e, por consequência, para o conhecimento amplo dessa região que já é desafiadora por natureza.
A última década trouxe grandes avanços nesse sentido. Em 2016, na primeira busca por trazer esses números aqui no Conteúdo Vital, além de alguns estudos mais específicos (incluídos nas referências deste artigo), foram consideradas duas referências principais então disponíveis: a primeira e mais antiga utilizada naquele momento foi o livro Ecologia e Conservação da Caatinga [editado por Inara Leal, Marcelo Tabarelli e José Maria Cardoso da Silva, publicado em 2003] e a segunda, o artigo “Caatinga Revisited: Ecology and Conservation of an Important Seasional Dry Forest” (ALBUQUERQUE et al., 2012). Foram os trabalhos mais amplos e diretos encontrados naquela ocasião, que permitiram a obtenção dos números obtidos àquela altura. Flora:pelo menos 1500 espécies de plantas vasculares; Aves: 510 espécies (distribuídas em 62 famílias); Peixes: 240 espécies pertencentes a sete ordens (ordens mais numerosas: Siluriformes 101 spp e Characiformes 89 spp); Répteis: 119 espécies (Amphisbaenia 10 spp, Crocodilianos 3, Lagartos 47, Serpentes 52 spp e Testudines 7 spp); Anfíbios: 56 espécies (Anura 53 spp e Gymnophiona 3 spp); Mamíferos: 156 espécies (12 spp endêmicas). Como podemos ver na tabela abaixo, contagem registrada atualmente é consideravelmente maior do que a encontrada nas referências utilizadas em 2016..
Entre os principais pioneiros que desbravaram o semiárido com importantes estudos para a descrição da Caatinga sob diversos aspectos, podem ser citados Dardano de Andrade-Lima, Assis Naziz Ab’sáber, Ana Maria Giuliette, Maria Jesus Nogueira Rodal, Marcelo Tabarelli, Inara Leal e seus vários colaboradores, cujas pesquisas ajudaram a revelar as principais características do clima, geomorfologia e vegetação do bioma, mas ainda temos muito a descobrir sobre a biodiversidade do Bioma Caatinga.
Por isso é estratégico para o Brasil fortalecer a pesquisa na Caatinga para propiciar novos conhecimentos científicos, tecnologias nacionais e estratégias de desenvolvimento econômico sustentável.
Referências
AB’SABER, A. N. O domínio morfoclimático das caatingas brasileiras. São Paulo: Instituto de Geografia, USP, Geomorfologia, 1974.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas na Caatinga (PPCaatinga): 2024–2027. Brasília, DF: MMA, 2024. Disponível em: https://dados.mma.gov.br/dataset/bb3fc887-7800-4d34-8abc-fd73491ec88c/resource/72e74ddc-9d16-4d70-9372-fe6229a5ac65/download/ppcaatinga_pt.pdf. Acesso em: 12 ago. 2026.
ALBUQUERQUE, U. P. et al. Caatinga revisited: ecology and conservation of an important seasonal dry forest. The Scientific World Journal, v. 2012, 2012.
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LEAL, I. R.; DA SILVA, J. M. C. Ecologia e conservação da Caatinga. Editora Universitária UFPE, 2003.
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PRADO, Darién E. As caatingas da América do Sul. Ecologia e conservação da Caatinga, v. 2, p. 3-74, 2003.
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